quarta-feira, 19 de junho de 2013

O texto abaixo não é meu. É do meu amigo Guilherme (Guiga).
É um texto bonito, emocionante e interessante. Pode parecer meio longo, mas é tão bem escrito que torna-se uma leitura fácil e rápida. Vou deixar aqui para lê-lo outras vezes e não esquecê-lo.

=]

Conheço muita gente que diz ser desnecessário dizer para o mundo que é gay, visto que a sexualidade de cada um é íntima, diz respeito a si e não ao mundo. Concordo. E embora não seja necessário escancarar algo que é meu, quero fazer mesmo assim.


Confrontar esses dois elementos não é novidade em minha vida. Mesmo depois de assumir minha homossexualidade para os meus amigos, por mais de um ano justificava, quando perguntado, que não havia contado para minha família por achar desnecessário falar sobre minha vida sexual com ela.

Até que um dia eu sonhei que minha mãe descobria. No sonho, a reação não podia ser pior: depois de apagar um cigarro no meu olho, se tornar uma criatura sobre-humana fortalecida pelo poder do ódio e me perseguir por um fosso de elevador, ela finalmente conseguiu me pegar, me trancar no quarto e cimentar a porta.

Quando acordei, antes que a coragem e a vergonha de ter me enganado por tantos anos com uma desculpa tão chinfrim passassem, levantei da cama e fui contar tudo para ela.

A conversa não foi agradável para nenhuma das duas partes, mas sinto que foi tão libertadora para ela quanto para mim. Descobri que desde a outra vez em que me assumi para ela, quando tinha 11 anos, cada passo meu havia se tornado um martírio na vida de minha mãe. Daquela vez ela me respondeu com um “é só uma fase” e eu, sabendo não ser, aceitei que a conversa acabasse assim. Mas para minha mãe era o começo de um inferno. Cada saída minha, a mudança de cidade, cursar psicologia, cada amigo novo, cada final de semana sem dizer para onde e com quem ia, tudo havia se tornado um terrível indício de que o filho realmente fosse gay, de que aquela “fase” não fosse passar. Isso ela só viria me contar em nossa segunda conversa.

Minha mãe viveu por uma década o sofrimento a que eu acredito que todas as mães que não aceitam a homossexualidade de seus filhos, mas a intuem, são submetidas. O sofrimento de uma dúvida que ameaça se concretizar a cada dia e que lança pequenas pistas que não conseguem evitar investigar – numa busca masoquista por uma verdade que temem, mas precisam, encontrar.

E aí eu ofereci a verdade a ela, dessa vez de forma definitiva. Completa. Sem espaço para esquivas ou desculpas, mas confrontada de frente e discutida. Doeu, eu sei. Mas doía mais a dúvida e a dúvida morreu.

A resposta que minha mãe recebeu não foi a que ela queria, mas foi infinitamente melhor que a incerteza que a consumia. Ela nunca quis um filho gay e até hoje não aceita completamente minha homossexualidade, mas agora ela pode trabalhar em cima de um terreno firme e certo. Não gosta e nunca vai gostar que eu seja gay – e não precisa, ninguém precisa –, mas só depois disso finalmente foi se sentir à vontade de pincelar assuntos sobre sexualidade comigo. Coisas simples como uso de camisinha, comentários que reconheçam a existência de uma vida sexual em seu filho; conversas que normalmente se iniciam no começo da adolescência mas que para ela eram um terreno assustador. Ela foi obrigada a encarar uma verdade que não queria, mas soube lidar com isso com a maturidade que se espera de uma mulher de sua idade e com a delicadeza que se espera de uma mãe. É triste que alguma vez eu tenha duvidado da capacidade dela de lidar com isso, achado que ela seria fraca ou despreparada demais.

A partir daí, minha mãe ganhou a liberdade para adentrar em uma parte da minha vida que lhe era negada. Não só minha vida sexual, mas minha vida afetiva. Desde então a minha relação com ela se tornou muito mais saudável, muito mais franca, muito mais próxima. Minha mãe deixou de ser uma figura que eu precisava manter à distância e se tornou bem vinda como toda mãe deve ser.

Essa melhora nos relacionamentos era algo que eu já havia percebido em minhas amizades – na época todos os meus amigos eram heterossexuais. É incrível como tudo se torna mais real quando você não precisa se submeter a uma vigilância constante. É incrível como tudo se torna mais leve quando você não precisa mais controlar seu jeito de andar, de sentar, seu modo de reagir às brincadeiras dos amigos, seus olhares, sempre achando que a qualquer momento um gesto, um movimento, vai denunciar a todos o que você tenta esconder mesmo se você não estiver fazendo nada além do que todos os outros fazem.

Desde criança (sim, criança) nunca tive problemas em aceitar minha sexualidade, não me culpava por pensar nos meninos da escola ou nos atores da televisão. Meu medo era apenas que o resto do mundo soubesse. Nada me assustava tanto quanto isso. O pavor era tamanho que, até mudar de cidade e ir para a universidade, sequer havia beijado outra pessoa com medo de que fosse descoberto.

E por quê? Não sei. Talvez soubesse na época, antes de assumir, mas hoje não. Depois que “saí do armário”, muita coisa ruim desapareceu, muita insegurança morreu sem deixar para trás nem um registro do que a fundamentava. Sobrou apenas uma estranha sensação de que por muito tempo me escondi sem qualquer motivo, por pura covardia sem base.

Discursos que eu criava para não encarar o fato de ser medroso se tornaram ridículos. Tentativas de transformar em discrição, introversão, o que era simplesmente falta de coragem. Medo de ser rejeitado pelos amigos, pela família? Não subestime o que os outros sentem por você. Não se ganha nada vivendo a vida se escondendo, mas se perde demais.


Agora o país está votando uma proposta de “cura gay” para permitir que meus companheiros psicólogos possam se manifestar contrários à homossexualidade e tenham a liberdade de “tratar” a sexualidade de alguém que os procure (ou seja levado a eles) querendo “deixar de ser gay”. Isso é triste, é um sinal de retrocesso e é escandalizante que uma proposta dessas seja gestada na própria Comissão de Direitos Humanos. Mas se é horrível pensar que vivemos num ambiente em que a homossexualidade é entendida como algo a ser curado, é pior ainda perceber que vivemos em uma situação em que pessoas se sentiriam compelidas a buscar essa cura por incapacidade de lidarem com a própria sexualidade. Uma sociedade que faça alguém se rejeitar a esse ponto e se odiar pelo simples fato de ser gay e acreditar que precisa consertar o que é. É triste pensar que eu vivo em um país onde pessoas possam se sentir doentes por serem gays, onde a busca pela recusa do que ela é sobrepuje a possibilidade de aceitação.

Eu nunca cheguei a odiar minha sexualidade, então não posso dizer o que essas pessoas sentem. Mas nem por isso acho que não há nada que eu possa fazer.

Minha sexualidade é minha e é meu direito mantê-la assim, mas sinto que é minha responsabilidade não fazê-lo. Sou gay, quero me sentir livre para dizer isso abertamente e queria que muitos fizessem isso. Como alguém que se aceita gay, sinto que tenho a responsabilidade de sair de minha zona de conforto e colocar meu tijolo na construção de um país onde os que ainda não se aceitam possam se sentir mais acolhidos.

Como homossexual, sinto que o mínimo, mas que já é muito, que posso fazer é mostrar que posso me assumir para o mundo e não ser menos por isso. Que isso é possível. Que isso é saudável. E, quem sabe um dia, normal.

Às vezes me pego imaginando se cada pessoa que aceita perfeitamente sua sexualidade, mas ainda assim se tranca no armário, assumisse. Quantos exemplos o país não teria a oferecer, a seguir. Quão mais convidativo e seguro o ambiente se tornaria para os que sofrem por algo tão simples. Sempre me parece que o jeito mais eficaz de mostrar que a homossexualidade não é um bicho-de-sete-cabeças é sendo capaz de lidar com a própria com naturalidade e abertura.

Por isso eu digo que não é da sua conta, mas eu sou gay. E não escondo isso, não finjo, não transformo namorado em “ela” quando falo na frente dos outros, não digo que conheci “uma pessoa”. Não é necessário me expor, mas só por mim. Pelos outros é.

Um comentário:

  1. Parabéns pela postagem, Helder! Concordo com cada palavra dita pelo seu amigo. Nada mais digno que o direito de "se ser o que se é".

    Sempre por aqui,

    Luana.

    =)

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