"Depois de ter sido arrombada e ter o muro pichado com os dizeres “assassino e covarde” no fim de semana, a casa da família do atirador Wellington Oliveira teve o muro pintado de branco por vizinhos na manhã de hoje (11). Os portões que haviam sido arrombados foram fechados com cartolina branca. Vizinhos também colocaram em frente à casa um cartaz pedindo paz."
(Fonte: Uol Notícias - Link original: http://migre.me/4e0vs ).
Acho que nem preciso dizer a que a notícia acima se refere, não é mesmo? Wellington Oliveira foi o protagonista de uma das cenas mais chocantes vividas no Brasil nos últimos dias (ou até mesmo nos últimos anos). Wellinton Menezes de Oliveira invadiu a escola municipal Tasso da Silveira, situada no bairro de Realengo - Zona Oeste do Rio de Janeiro - na última quinta-feira, 7 de abril, as 8h30 da manhã... e foi assim que começou a terrível história do "Massacre de Realengo", que é como está sendo chamado o acontecimento.
Não há muito mais a se acrescentar sobre o fato ocorrido. A mídia já trabalhou o ocorrido de todas as maneiras possíveis. O assassino já foi tratado como fanático religioso, vítima de bullying no colégio, esquizofrênico, psicopata... e, independente de quem era ou das razões que o moveram, as vidas perdidas não voltarão. O malfeitor já está morto. Os feridos já estão sendo tratados (li recentemente que todos passam bem). Então agora, a quem culpar?
É uma necessidade constante do ser humano. Culpar alguém. Seja para consolar, descarregar o ódio contido, explicar uma situação, lamentar uma perda... sempre precisamos encontrar um culpado para a situação. No caso acima, a culpa rondou vários cômodos e chegou num só lugar: a casa da vítima. Não apenas a casa, mas o que ela simboliza: a família do assassino.
A casa foi completamente pichada com palavras de ódio, foi arrombada, certamente depredada (não só por fora como também por dentro)... em todo caso, não importa, realmente o que aconteceu com a casa. O interessante da situação é entender o que aconteceu com quem resolveu fazer isso! Afinal, como alguém pode dizer que se revolta com um crime de ódio e... pratica o ódio? Como eu posso dizer que sou contra uma atitude absolutamente violenta e cruel destruindo uma casa, ameaçando familiares, destruindo mais vidas!
Uma família que era querida no bairro, respeitada pelos vizinhos e até admirada por alguns, sendo ameaçada, tendo que se esconder e temer tudo e todos. Essa é a definição de paz? É isso que chamamos de justiça?
Ninguém aqui é livre de todas as culpas para sair atirando pedras, é bem verdade. Mas, será que a concepção de "paz" de algumas pessoas não está um tanto deturpado? Afinal, quantos outros não tiveram a mesma idéia desses predadores e, simplesmente sufocou o desejo de ir até a casa e mostrar seu sinal de justiça também? Agora imaginem se o assassino não estivesse morto, quantos não o estariam tentando matar agora? Onde ele estaria essas horas? Eu acredito piamente que ele não teria sobrevivido por muito tempo.
Definitivamente, eu não sou ninguém para julgar qualquer atitude de quem clama por justiça, de quem está sofrendo a perda de um parente ou mesmo de quem se mostrou sensível diante do ocorrido. A dor é inimaginável, mas, será que estamos lidando de maneira correta com isso?
Para todas as questões levantadas, minha única e sincera resposta é "não". Esperar pela justiça é quase uma piada. Reclamar da segurança ou qualquer coisa do tipo - bem, reclamem com os governantes que elegeram. Mas, fazer justiça com as próprias mãos? Tornar-se também um criminoso e dar continuidade a uma cadeia de ódio? Aprovar e aceitar esse tipo de atitude como uma coisa normal e certa? Não, definitivamente não é esse o caminho. Eu posso não ser o dono da verdade, mas uma certeza eu tenho: uma sociedade que segue a lógica do "olho por olho, dente por dente" caminha lentamente para o caos.
É como um pai que diz ao filho que "se apanhar na escola e não reagir, apanhará também em casa", e se assusta quando, no futuro, vê um filho que passa a resolver todos os problemas com violência e raiva.
Entendam, eu não defendo a impunidade. Quem erra, seja no que for, deve ser corrigido o mais rápido possível! A verdadeira questão é como se deve corrigir?
Pense bem, pois a sua casa pode ser a próxima vítima, seja da "justiça" de uns ou da "injustiça" de outros... A família do Wellington era uma boa família, e hoje sofre a "justiça" praticada pela sociedade. E você, como acha que vai ser julgado pelos inquisidores?
Boa sorte com isso.
"Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos."
(Martin Luther King).
Post scriptum: Aplausos para os vizinhos que tomaram a iniciativa de pintar a casa e fazer cartazes pedindo pela paz. É graças a esse tipo de atitude verdadeiramente justa que ainda conseguimos acreditar num futuro melhor.
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