Juazeiro, eu te amo.
Disse que ia embora, bateu a porta e deixou meia dúzia de palavrões, algumas acusações falsas e uma culpa que não cabia no meu apartamento de trinta metros quadrados - contando a varanda que é comum com o apto cento e sete, como me omitiu o corretor- e no meu pé-direito de dois e sessenta. E eu quis chorar sua ida, quis descer as escadas e me atirar em frente ao táxi, mas teria que pegar a chave da porta antes, se não ficaria preso no corredor. E tinha também a louça do jantar na pia. Tinha o trabalho no outro dia às oito. Fazer café, tomar banho, pegar o ônibus. Terminar o que deixei pra outro dia, ligar pra mamãe e perguntar de vovó, comprar uma superbonder. Forrar a cama, varrer a sala, espanar os souvenirs que me compram os amigos enquanto tiram foto segurando a torre Eiffel, empurrando a torre de Pisa.
Um dia levava pra casa uma garrafa e um cd, achei que aí sim mergulharia fundo nas memórias, sofreria como nunca, só não me atiraria da varanda pq é primeiro andar. Mas o encanamento estourou no banheiro e o síndico me ligou. Esperei o encanador que já começou dizendo que o problema era complicado de resolver. Como todo encanador. Resolveu. E a água continuou a passar por entre os canos, desaguando nos furinhos do chuveiro, na torneira da pia, enchendo o balde com o pano de chão e desinfetante flor do campo.
Acho que o relógio e o calendário, esses que medem o tempo da ruga e da artrite, esses que dizem que corroem e consomem; foram tão amigos quanto o rivotril.
Comprei uma passagem ontem, quero tirar uma foto que eu fique do tamanho de Padre Cícero. Ele, eu e um coração de madeira.
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